Então... Joanesburgo. Vamos falar sobre ela.
A primeira impressão, e a mais marcante pra mim, é de uma cidade vazia. Desde que eu cheguei aqui, todos os dias, dia de semana, final de semana, feriado... tudo vazio. Muitos prédios vazios, com placa de “to let”, tanto residenciais quanto escritórios. As ruas vazias, com pouquíssimas exceções em alguns centros de comércio. Os restaurantes vazios, sempre só uma ou duas mesas ocupadas. Os parques vazios, os museus vazios. É até difícil imaginar esse lugar fervendo de turistas daqui a um mês, na copa.
Definitivamente não é uma cidade pra se conhecer sozinho. Com certeza se eu estivesse com mais gente teria feito mais coisas e conhecido mais lugares, e poderia falar com mais propriedade. Mas diante de tudo que a gente ouve falar sobre esse lugar, eu é que não ia ficar por aí andando sozinha, especialmente à noite.
Outra vantagem de não vir sozinho é ter alguém pra dividir o taxi. Porque aqui é assim: não tem ônibus, não tem trem, não tem metrô. É taxi (private cab) ou perua (o que eles chamam de taxi). E as peruas... bom, se não bastasse o fato de dirigirem feito loucas, ainda tem o problema de as rotas serem disputadas por “máfias”, o que acaba gerando muita violência entre elas. Violência tipo tiroteio e tal. Já desencoraja um pouco, né?! E além disso, elas não tem escrito pra onde vão, como no Brasil. Aqui rola todo um sistema complexo de sinais com a mão, pra você dizer pro motorista pra onde vai e ele decidir se para pra você ou não. Indicador pra cima = centro; indicador e dedo médio pra cima = downtown on a detour (whatever that means); anular e dedinho pra cima = bairro; e por aí vai. Quer dizer, não dá pra chegar aqui e contar com esse tipo de transporte público, o melhor é pegar taxi mesmo.
Se você estiver vindo pra cá, te recomendo anotar esse número: 011 403 0000. É um radio-taxi, tipo o Delta Taxi em São Paulo. Você liga, diz onde está e pra onde vai, e eles mandam alguém te buscar. É mais seguro, sabendo que existe um registro de quem chamou e quem atendeu o chamado. Melhor do que pegar qualquer um que passe na rua, que podefazer qualquer coisa com você sem ninguém saber. Aliás, um detalhe importante: o taxi aqui é pré-pago. Quando você entra, pergunta quanto é pra ir pra tal lugar e pronto. Não tem nem taximetro. Então não precisa ter medo de eles darem voltas por aí com você pra ganhar mais dinheiro, como no Brasil.
No geral, as coisas aqui não são caras. A cotação do Rand favorece a gente. Um jantar em um restaurante bacana, comida + vinho, pra uma pessoa, dá mais ou menos R70, o que dá mais ou menos R$17. Bem razoável, né? Daí aproveita que ficou barato e deixa uma gorjetinha bacana pros garçons, que normalmente são super simpáticos e atenciosos.
Aliás, não só os garçons. As pessoas daqui são muito fofas e prestativas. Todo mundo olha nos olhos, sorri, se oferece pra ajudar. É uma coisa cultural mesmo. Muito diferente dos Australianos, também colonizados pelos ingleses e que herdaram deles a frieza, a seriedade, os Africanos conservaram bem suas raízes. A língua, a dança, a música e o calor do povo você sente em qualquer lugar que vá.
Falando nos lugares, esses são os que eu consegui conhecer...
- Yeoville: não se deixe enganar se disserem que é uma área de comércio “despojada”. Despojada, nesse caso, significa caída, mal frequentada, cheia de lixo e longe de tudo. Tá, eu não fiquei lá tempo suficiente pra ter certeza, mas o pouco tempo que eu fiquei me deu uma impressão tão ruim que... não recomendo nem tentar.
- Melville: delícia! Mesmo se não for se hospedar aqui, vale uma volta pela 7th street, cheia de lojinhas, barzinhos, artesanato. É o único lugar onde eu me senti a vontade pra andar sozinha a pé numa boa. A cada duas ou três casas tem um segurança na rua cuidando da gente.
- Soweto: vale conhecer pela história, pela herança do apartheid e tal, tem uns museus bacanas- o Hector Pieterson Museum em particular- uns pontos históricos – casa do Mandela e do Desmond Tutu, dois Prêmios Nobel na mesma rua- mas sabe aquele sentimento de “que coisa ridícula” que a gente tem quando vê os gringos fazendo excursão pra Rocinha? É exatamente a mesma coisa. A diferença social é gritante, as pessoas mais pobres vivem num estado muito triste de falta de tudo. É triste mesmo e, na minha opinião, pra ver pobreza eu vejo no Brasil mesmo, não preciso vir até aqui.
- AfricAMuseum e Market Theatre: o museu é legal, mas tem um quê de feira de ciências. Umas coisas que parecem meio improvisadas, uns painéis com imagens em baixa resolução, uns textos que parecem que foram feitos com WordArt. Tem coisas interessantes, uma parte grande sobre a história da fotografia, outra sobre a influência da moda no comportamento das pessoas. Mas o mais legal de lá mesmo é a arquitetura do prédio. Isso sim é diferente de qualquer outro museu que eu já fui. E a entrada é grátis, então se você tiver tempo, vale uma visita sim. Já o Market Theatre, que deveria ser um calçadão com uma feirinha, pelo menos quando eu fui não tinha NADA, absolutamente nada. Umas três barraquinhas pobretonas e ninguém olhando, ninguém andando pela calçada.. Na verdade foi o único momento que eu me senti um pouco intimidada, porque como eu era a única pessoa andando ali, um cara veio falar comigo e queria porque queria que eu fosse com ele até algum lugar pra pegar um taxi. Eu insisti que não e voltei pro museu pra pedir um taxi de lá. Ele não ficou muito feliz, mas me deixou ir.
- Cradle of Human Kind: esse sim, vale a pena. Tem uma estrutura comparada a qualquer museu ou parque de primeiro mundo. As cavernas, pra quem gosta, são muito legais também. Isso sem falar na importância delas pra arqueologia. Lá foram descobertos muitos dos fósseis mais importantes do mundo – daí o nome “berço da humanidade”. Além das cavernas, tem também o museu Maropeng, que vale especialmente pra crianças. Ensina muita coisa sobre a evolução da Terra e das espécies aqui, de uma maneira muito didática, com direito a passeio de barquinho pela formação do planeta e tudo.
- Eastgate Mall: só vá se quiser aproveitar a diferença no câmbio pra comprar de verdade. Pra passear não vale. Qualquer shopping de São Paulo é mais legal.
- Rhino & Lion Park: nesse eu nem queria ir, acabei indo só porque o Pilanesburg National Park tava fechado, por conta da chuva. E foi uma surpresa boa. Vi muitos bichos, brinquei com os leõezinhos (por R30, muito razoável pra quem pagou AUD$20 pra pegar um koala no colo)... enfim, nada demais, mas um passeio divertido que vale o preço que cobra.
Claro que em cinco dias não dá nem pra dizer que eu conheço realmente Joanesburgo. Mas isso foi o que deu pra ver com o tempo que eu tive, e pra mim, por enquanto, já foi suficiente. Se me perguntarem se compensa vir pra cá, respondo que sim, sem dúvidas. Se me perguntarem se eu voltaria... hum... depende. Acho que só em algum outro esquema, talvez pra fazer safari mesmo, ficar em um lodge e tudo mais.
Mas chega de África, que amanhã é dia de mudar de continente de novo.
terça-feira, 4 de maio de 2010
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Waka Waka
Faz nem 24h que eu estava no aeroporto de Guarulhos fazendo check in, mas parece que faz uns 3 dias. Tanta coisa aconteceu nesse tempo, sei nem por onde começar a contar.
Bom, aeroporto. Primeiro contato com os sul africanos na fila do check in, eles tentando furar a fila na minha frente. Eu, que sabia que o vôo ia sair no mesmo horário independente de quem fizesse o check in primeiro, fiquei na minha e não criei caso. O moço da South African Airways percebeu, se sensibilizou e abriu um outro balcão pra me atender. Não bastasse isso, me colocou numa poltrona no corredor e BLOQUEOU AS 3 POLTRONAS DO MEU LADO. Pra eu poder dormir confortável. Simpatia 1 x 0 Punocuzice.
O avião... ah, o avião! Pra quem da outra vez viajou de Aerolineas Argentinas, aquilo era o paraíso. Poltronas grandes, espaçosas, uma TV pra cada passageiro, muitos filmes bons pra escolher (eu assisti The Blind Side, o que deu o Oscar pra Sandra Bullock, e Toy Story 2), comida com gosto de comida, tripulação simpática. A única coisa ruim foi um brasileiro folgado que viu que eu tava com 4 poltronas e se achou no direito de usar 2 delas. Mas de novo, não criei caso. Deixa pra lá.
Cheguei em Joanesburgo e agora eu sei exatamente como um gringo se sente quando chega no Brasil. A seleção da Africa do Sul estava chegando na mesma hora, e os torcedores estavam esperando no aeroporto, fazendo zona que nem a gente faz no Brasil. Além disso, toda hora eu era cercada por pessoas estranhas, com jeito de malandro, falando entre elas em uma lingua que eu não entendo, oferecendo serviços que eu não sei se preciso. E pra mim, não restou nada a fazer a não ser confiar e torcer pra não ser muito enganada.
E enganada eu fui. O albergue que eu tinha reservado, que tinha uma cara fofa (olha se não tinha: http://www.2bhappy.co.za/home.html) quando eu cheguei era um pulgueiro num bairro horroroso. E ainda queriam que eu assinasse um documento dizendo que se eu quebrasse alguma coisa lá eu tinha que pagar mas se alguém roubasse alguma coisa minha eles não se responsabilizavam. Juntei minhas tralhas e saí o mais rápido que eu consegui.
Por sorte eu já tinha visto, no guia e na internet, um outro lugar, que é onde eu estou agora. Esse aqui ó: http://www.melvilleturret.co.za/. Ele sim, faz justiça ao que mostra no site. Agora estou num quarto, com cama de casal, aquecedor, banheiro, TV a cabo, internet, chocolatinho no travesseiro... e vontade de ficar fechada no quarto pra sempre.
Mas me forcei a sair pra comer. O bairro aqui tem cara de Morumbi, com uma rua da Vila Madalena, um barzinho atrás do outro. Nas ruas tem muitos camelôs vendendo artesanato, a maioria esculturas de miçanga e arame, em todos os formatos e tamanhos. As pessoas são muito simpáticas, todo mundo olha no olho, sorri, cumprimenta. Tomei uma taça de vinho, comi um macarrão e, agora sim, voltei pra me trancar e não sair mais até amanhã.
Bom, aeroporto. Primeiro contato com os sul africanos na fila do check in, eles tentando furar a fila na minha frente. Eu, que sabia que o vôo ia sair no mesmo horário independente de quem fizesse o check in primeiro, fiquei na minha e não criei caso. O moço da South African Airways percebeu, se sensibilizou e abriu um outro balcão pra me atender. Não bastasse isso, me colocou numa poltrona no corredor e BLOQUEOU AS 3 POLTRONAS DO MEU LADO. Pra eu poder dormir confortável. Simpatia 1 x 0 Punocuzice.
O avião... ah, o avião! Pra quem da outra vez viajou de Aerolineas Argentinas, aquilo era o paraíso. Poltronas grandes, espaçosas, uma TV pra cada passageiro, muitos filmes bons pra escolher (eu assisti The Blind Side, o que deu o Oscar pra Sandra Bullock, e Toy Story 2), comida com gosto de comida, tripulação simpática. A única coisa ruim foi um brasileiro folgado que viu que eu tava com 4 poltronas e se achou no direito de usar 2 delas. Mas de novo, não criei caso. Deixa pra lá.
Cheguei em Joanesburgo e agora eu sei exatamente como um gringo se sente quando chega no Brasil. A seleção da Africa do Sul estava chegando na mesma hora, e os torcedores estavam esperando no aeroporto, fazendo zona que nem a gente faz no Brasil. Além disso, toda hora eu era cercada por pessoas estranhas, com jeito de malandro, falando entre elas em uma lingua que eu não entendo, oferecendo serviços que eu não sei se preciso. E pra mim, não restou nada a fazer a não ser confiar e torcer pra não ser muito enganada.
E enganada eu fui. O albergue que eu tinha reservado, que tinha uma cara fofa (olha se não tinha: http://www.2bhappy.co.za/home.html) quando eu cheguei era um pulgueiro num bairro horroroso. E ainda queriam que eu assinasse um documento dizendo que se eu quebrasse alguma coisa lá eu tinha que pagar mas se alguém roubasse alguma coisa minha eles não se responsabilizavam. Juntei minhas tralhas e saí o mais rápido que eu consegui.
Por sorte eu já tinha visto, no guia e na internet, um outro lugar, que é onde eu estou agora. Esse aqui ó: http://www.melvilleturret.co.za/. Ele sim, faz justiça ao que mostra no site. Agora estou num quarto, com cama de casal, aquecedor, banheiro, TV a cabo, internet, chocolatinho no travesseiro... e vontade de ficar fechada no quarto pra sempre.
Mas me forcei a sair pra comer. O bairro aqui tem cara de Morumbi, com uma rua da Vila Madalena, um barzinho atrás do outro. Nas ruas tem muitos camelôs vendendo artesanato, a maioria esculturas de miçanga e arame, em todos os formatos e tamanhos. As pessoas são muito simpáticas, todo mundo olha no olho, sorri, cumprimenta. Tomei uma taça de vinho, comi um macarrão e, agora sim, voltei pra me trancar e não sair mais até amanhã.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Hard Reset
Sabe quando o computador até tá funcionando, mas não tá lá essas coisas? Você até consegue acessar a internet, mas o MSN não loga, o Power Point parou de responder e as entradas USB não reconhecem mais os cabos? Até daria pra você continuar trabalhando nele assim mais um tempo, mas você sente que eventualmente ele vai travar geral e você vai perder tudo que está há horas fazendo. Aí você manda reiniciar e ele nada. Então você tem que meter o dedão no power e força-lo a desligar na marra.
Pois é. A vida tava assim. Tava funcionando mais ou menos. Provavelmente poderia ser levada assim durante mais uns anos. Mas eventualmente eu ia perceber que não era isso que eu queria e, talvez, quando isso acontecesse, algumas coisas importantes talvez já não pudessem mais ser salvas.
Então eu salvei o que deu pra salvar, fechei o que não respondia mais e vou reiniciar. Amanhã, a essa hora, vou estar voando pro outro lado do mundo pra ver se lá as coisas voltam a funcionar da maneira que deveriam.
A diferença é que no computador você sabe exatamente como elas deveriam funcionar, na vida é um pouco mais complicado.
Pois é. A vida tava assim. Tava funcionando mais ou menos. Provavelmente poderia ser levada assim durante mais uns anos. Mas eventualmente eu ia perceber que não era isso que eu queria e, talvez, quando isso acontecesse, algumas coisas importantes talvez já não pudessem mais ser salvas.
Então eu salvei o que deu pra salvar, fechei o que não respondia mais e vou reiniciar. Amanhã, a essa hora, vou estar voando pro outro lado do mundo pra ver se lá as coisas voltam a funcionar da maneira que deveriam.
A diferença é que no computador você sabe exatamente como elas deveriam funcionar, na vida é um pouco mais complicado.
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